Em Setembro de 1987, fazia uma das mais marcantes caminhadas de um itinerário que me levaria a percorrer alguns dos mais recônditos lugares de Portugal. Apanhava o comboio em S. Bento, no Porto, e descia em Barca d’Alva, então estação terminal da Linha do Douro. Cinco dias depois chegava a Miranda do Douro. Fizera, na altura, poucas fotografias. Fora um ‘mergulho’ no mais grandioso e escondido vale da paisagem portuguesa, num desfiladeiro imenso e profundo, um espaço raro e de uma escala que, na sua verticalidade, impressiona a nossa dimensão humana. Fora um percurso simultâneamente breve e demorado, por lugares onde as medidas do espaço e do tempo parecem não ter qualquer relação entre si. Em 1996 regressava ao vale, no desenvolvimento de um projecto sobre o território português e o tempo longo, na procura da identificação de um país. Ocasionalmente, durante o ano de 2003, voltaria ao vale. No final de Agosto de 2005, já no contexto deste projecto, haveria de voltar ao Douro, com o objectivo de fotografar alguns lugares específicos, e de os confrontar com um hitato temporal de cerca de dezoito anos. Num tempo em que uma larga extensão de território sofre profundas mutações, provocadas por uma crescente ânsia de construir e moldar a paisagem, o vale do Douro fronteiriço, permanece imutável num desafio, ou convite, a uma viagem ao interior da terra.
Os dípticos aqui apresentados resultaram das viagens realizadas em 1996 e 2005.
Duarte Belo 2006