INQUIETAÇÃO AS ÁGUAS

 

Este Douro de água de muitos rios nasceu e cresceu comigo, antes de ser adormecido por diques e pela gente.

 

Renasce uma outra vez em Crestuma, onde se torna a cobrir com uma camada de agitação e de vida semelhante a bruma, que lhe faz companhia até à Foz.

 

Nesse renascer vai recuperar muitos dos seus pertences, que a montante já tinha esquecido.

 

A força da corrente, os botes, os saveiros, os estaleiros, o sável, a lampreia. Até alguns rabelos decorativos e ornamentados que uma vez por ano enchem as velas com ventos de côr de mar.

 

O tempo deixou ficar alguns restos de bateiras e outros descuidos do passado, que agora se enfeitam com gaivotas,

ou com garças translúcidas, por outros lados cansados onde o rio se  distrai.

 

Pescadores, barqueiros e outros habituais fazem inveja a muitos apressados, que buzinam o seu stress em longas filas estranguladas pelas margens da marginal.

 

Aos domingos, muito domingo tardio se vai cumprindo pelas margens deste Porto, parando à sombra das palmeiras com o jornal como desculpa, enquanto ela, numa tarde sempre igual, vai fazendo a sua renda sem realmente fazer nada.

 

Mas sempre, sempre que possível, junto ao rio onde tudo se move, dentro e fora das suas águas a não ser as margens, que sempre foram as suas e que aprendeu a respeitar.

 

Tem dúzias de cores, que vai distribuindo por meses, horas, sombras e lugares. 

 

Não é só douro ao fim da tarde. É branco de manhãzinha, de prata perto das onze,é azul visto do sul, côr de azeitona à noite, preto e branco quando eu quero.  Às vezes Tinto no Freixo, castanho de côr de cheia ou cinza em caso de chuva.

Púrpura ao anoitecer.

 

São algumas das eternas cores e a fotografia nunca lhes dá o subtil valor.

 

João Paulo SottoMayor 2006